A empregada doméstica é ainda o escravo de ontem, diz ex-empregada

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Assim como a mãe, avó e primas, Joyce Fernandes se tornou empregada doméstica aos 19 anos. Durante os sete anos em que trabalhou em casas de família, ela ouviu comentários maldosos e sofreu abusos de patrões. Hoje, com 31 anos, ela já não é mais empregada, é professora de história e rapper, mas decidiu ajudar as mulheres que ainda passam por essa situação. Criadas na última quinta-feira e já com quase 100 mil curtidas, a página e a hashtag “Eu Empregada Doméstica” reúnem relatos anônimos de domésticas.

DomésticasA iniciativa surgiu após a professora publicar em seu Facebook um caso que aconteceu com ela quando ainda era empregada. Naquela ocasião, Joyce foi proibida de ingerir a comida que cozinhava na casa dos patrões.  Em menos de 48 horas que a ação foi criada, a professora recebeu mais de três mil mensagens na web. Na maioria dos casos, as mulheres relatam assédios, abusos e preconceito que sofreram onde trabalhavam.

 “Fui humilhada porque era menina do interior e fazia tudo o que eles mandavam. Com o passar do tempo, não aguentava mais ficar naquela casa”, escreveu uma das mulheres. “Minha mãe trabalhou para uma senhora que pagava R$ 5 por faxina”, contou outra.

Para Joyce, a iniciativa dá maior visibilidade ao que ocorre na relação entre o patrão e a doméstica. Ela afirmou ainda que, no Brasil, ainda há um resquício do período da escravidão no país. “Hoje só mudou o nome: de escravos domésticos, são empregadas domésticas. As patroas tendem a dizer que as empregadas são como se fossem da família, mas acabam abolindo os direitos delas. Mesmo com a PEC das domésticas, os direitos não são assegurados”, explicou Joyce, que também utiliza o nome artístico ‘Preta Rara’.

Ela destacou ainda que, na maioria das vezes, esse trabalho é feito por mulheres negras, já que elas não têm tantas chances no mercado de trabalho como as mulheres brancas. “As brancas ganham menos que os homens, mas as negras chegam a ganhar menos que elas. Para gente, essa profissão [a de empregada] não pode ser hereditária, a única opção, a nossa única condição”, ressaltou a rapper.

O último emprego de Joyce como empregada doméstica foi em 2009, quando conseguiu uma vaga de operadora de marketing. Ainda assim, ela continuou como diarista, para ajudar a pagar a faculdade. “Era um trabalho pesado. Foi com muito sacrifício. Era difícil ainda conseguir estudar por causa do meu trabalho”, reforçou a professora, lembrando que ela aceitou ser empregada após ter o currículo negado nos lugares onde procurava emprego.

“Não conseguia nada, até uma amiga minha dizer: ‘você entrega currículo com foto, você é preta, tem que colocar sem foto’. Quando comecei a fazer isso, pelo menos me chamavam para entrevistas. Ser empregada não pode ser a única escolha das negras”, disse Joyce.

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