Imprevisibilidade e fatalidade do futebol

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O ufanismo de que somos imbatíveis antes das Copas induz ao torcedor brasileiro que já ganhamos antes da bola rolar. Somos os melhores sim, mas não ganharemos todas

O futebol é a coisa inútil mais importante de todas. Um dia esse ditado foi escrito, mas hoje ele não teria tanta relevância ou nenhuma. Neste momento se disputa o mais importante torneio futebolístico do Planeta Terra. Ao fim dos 64 jogos, mais de 3,2 bilhões de pessoas terão visto pela TV e nos estádios da Rússia a bola rolar para 32 seleções que representam a vida para alguns desses milhões de aficionados, apaixonados e que consideram a derrota Mundial, especialmente em países como Brasil e Argentina algo parecido com humilhação quando na verdade é apenas uma competição esportiva e haverá vencedores e perdedores apenas nas quatro-linhas.

No Brasil, especificamente, perder a Copa do Mundo significa fracasso, horror ou algo muito mais grave.

Quase ninguém no país “Pátria das Chuteiras” aceita ou admite deixar a Rússia sem a Taça. Afinal, aqui nascem os melhores jogadores de todo o mundo, que têm obrigação de vencer.

Quando a bola rola para a Seleção Canarinho na Copa nem que seja por alguns instantes ou dias, esquecemos nossos problemas sociais, econômicos, políticos, a violência urbana e rural, a má qualidade na educação e no atendimento na saúde e, alguns casos, até o desemprego.

Ninguém conta a imprevisibilidade ou fatalidade em todos os esportes, especialmente no futebol. Queremos e temos que ganhar todas as partidas.

Fazemos questão de esquecer por momentos o Maracanazo de 50, a frustação de 66, a invencibilidade de 86 perdida no pênalti de Zico, a tensão de 98 com Ronaldo (tinha ou não condições de jogo?) e mais recentemente os 7 a 1 em casa da Alemanha.

No futebol não se ganha de véspera, mas se perde partidas e campeonatos com o ufanismo a que é levado o torcedor brasileiro pela imprensa ‘arrogante, despreparada e perniciosa’.

Induz o torcedor brasileiro não apenas a torcer, mas a ter a certeza de que ninguém nos vencerá, somos e sempre seremos os melhores. Até que somos o melhor futebol do mundo (quase todos, senão todos os grandes times têm jogadores brasileiros titulares), mas isso não nos garante vencer.

Não preparam o torcedor brasileiro para a admissibilidade da derrota, que necessariamente é um fracasso.

E hoje mais ainda. Colocam para comentar, especialmente nas redes de TV, pessoas, não profissionais, que viveram nas quatro-linhas, mas não estão preparadas para comentar fazendo desse mister um simples jogo de exemplos, alguns até fracassados nas Copas em detrimento a quem ao menos tem correção gramatical, eloquência verbal e não tem derrotas e mais derrotas, e tentam transmitir que ali poderia se acertar o chute, o passe, gol, mas não o fez quando a oportunidade teve.

Pelo menos um consolo. Temos opção de alguns canais e também a de desligar o som e apenas ver.

Yancey Cerqueira

Radialista DRT/BA 06

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