TV Globo demite jornalista que voltou de ‘licença médica’

671
Jornalista Izabella Camargo, ex-Rede Globo

Apresentadora teve Síndrome de Burnout, condição que tem a sobrecarga no trabalho como motivo número um para desenvolvimento

A apresentadora Izabella Camargo disse que foi um choque ser demitida esta semana pela diretoria de Jornalismo da Globo. O susto se deve ao fato de que ela estava voltando de uma licença médica por ter desenvolvido a Síndrome de Burnout, um problema grave associado à rotina estressante e as muitas exigências profissionais.

“Estou sendo punida por ter ficado doente, com uma doença funcional, e os laudos provam isso. O turno da madrugada vai te dando um déficit celular. Trabalhar em horário especial descompensa os órgãos”, afirmou Camargo em entrevista ao site ‘Notícias da Tv’. A repórter contou que estava acordando por volta das 2 h para começar a trabalhar às 3 h.

Pode soar exagerado dizer que a mudança de turno afeta tanto o corpo, mas é verdade. O organismo não consegue compreender a troca e sofre sem se adaptar. Para ter uma ideia, de acordo com a OMS (Organização Mundial da Saúde), o trabalho noturno é uma das prováveis causas de câncer, devido à ruptura do ritmo circadiano –período de aproximadamente 24 horas em que se baseia o ciclo biológico. Uma pesquisa conseguiu até cravar um aumento de 19% no risco de câncer de trabalhadoras que faziam turnos noturnos de longa duração.

“No corpo tudo é programado e funciona como um relógio. A melatonina, por exemplo, é um hormônio que induz o sono e é liberado sempre ao escurecer no fim do dia. Você pode mudar seu horário, mas o hormônio não mudará o dele”, explica Luiz Scocca, psiquiatra da Associação Brasileira de Psiquiatria.

Dormir bem é uma recomendação para manter o corpo funcionando adequadamente, para ser mais saudável. Ao sair do ritmo de sono você enfraquece, passa constantemente por cima do impulso biológico que diz que você deveria estar dormindo e não trabalhando, e acaba em um estado de “jet lag” constante.

Além disso, não criar uma rotina saudável de sono faz com que você libere mais substâncias relacionadas ao estresse. “Por um lado, o estresse é positivo, libera cortisol e adrenalina, te deixando atento, em alerta. Porém, manter esse estado de hipervigília por meses leva a fadiga crônica e esgotamento. Você fica hiperestimulado por muito tempo, achando que precisara dos seus instintos de luta ou fuga, mas é só seu trabalho. O corpo perde forças e começa a falhar”, diz Fabio Porto, neurologista do Hospital das Clínicas de São Paulo.

Nesse ciclo de pouco sono e muito estresse, o cérebro fica desregulado e, por ser o maestro da nossa orquestra, pode lesar o funcionamento de outros órgãos. “Fora que o cortisol em excesso enfraquece o sistema imunológico e deixa o organismo mais exposto a doenças, além de elevar o nível de inflamações e poder reduzir partes do cérebro relacionadas a memória”, completa Scocca.

Estudos mostram ainda que trabalhadores noturnos têm maior risco de desenvolver diabetes tipo 2. No caso de Izabella, a repórter podia já sofrer com os sintomas da Síndrome de Burnout e a mudança brusca de turno de trabalho somou aos danos e estresse.

COMPARTILHAR